Análise do documentário The Great Hack – O caso Facebook e Cambridge Analytica

Recentemente a Netflix lançou o documentário The Great Hack (Privacidade Hackeada), que aborda o caso do Facebook e Cambridge Analytica onde dados de milhares de usuários foram utilizados sem o devido consentimento.

Muito tem se falado nos últimos meses sobre proteção de dados pessoais, privacidade na internet, vazamentos de informações e em determinados momentos paramos e pensamos, “ Como é que isso tudo foi acontecer? ”

A verdade é que no mundo conectado, o ser humano virou produto e estamos sendo rastreados a cada minuto.

Sempre que:

  • Usamos o cartão de crédito;
  • Pesquisamos na web;
  • Compartilhamos localização;
  • Curtidas;

tudo isso está sendo coletado em tempo real.

O documentário nos mostra que estes dados estão trançando um perfil de identidade de todos nós, dando acesso direto ao impulso emocional para qualquer comprador.

Com essas informações, as empresas competem pela atenção do indivíduo, criando um fluxo constante de conteúdo personalizado.

Há quem diga (por total falta de conhecimento) que isso não é importante.

No entanto, antes de estourar o caso de violação de dados do Facebook, a própria Cambridge Analytica alegou ter 5000 (cinco mil) pontos de medição de cada eleitor dos EUA.

E aí paramos para pensar e nos questionar…

O que é possível fazer com 5000 dados de cada cidadão de um país???

Ainda mais durante o período das eleições presidenciais norte americanas!

Exato. A Eleição do Donald Trump.

A análise de dados pessoais em um centro de big data, data analytics acaba fornecendo informações como o que eu gosto, o que eu temo, o que chama a minha atenção e, claro, opiniões políticas.

A Cambridge Analytica trabalhou com o Projeto Álamo durante as eleições americanas e a votação do BREXIT.

Neste projeto, a Cambridge Analytica gastava 1 milhão de dólares por dia em Facebook ADS.

Através de formulários de pesquisa direcionado especificamente aos Estados que poderiam decidir o rumo das eleições e em pessoas que, baseada nos dados coletados, poderiam ser influenciadas via redes sociais a tomas a decisão que a empresa queria.

E ainda temos um agravante neste caso, pois a Cambridge Analytica não coletava apenas os dados das pessoas que preenchiam os formulários sem ler os termos de uso.

O maior problema era que, os abusivos termos de uso autorizavam a coleta de dados os amigos no Facebook das pessoas que preenchiam as enquetes.

O caso tomou uma repercussão enorme, inclusive gerando um processo no Tribunal americano, que levou até mesmo o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg a depor perante as autoridades.

E então entramos em pontos até então ainda sem definição e entendimento. Se os dados são o “novo petróleo” e são invisíveis, como tornar o invisível visível???

Outro ponto:

Os dados dos eleitores americanos foram coletados na rede social Facebook e processados na sede da Cambridge Analytica na Grã-Bretanha.

Neste caso, qual lei deverá ser aplicada? A lei americana ou a lei europeia???

Para solucionar (ou pelo menos tentar) casos como esse, leis como a GDPR e LGPD foram criadas.

Pois no caso em comento, para um cidadão americano solicitar à Cambridge Analytica os seus dados, fora necessário contratar um Advogado Britânico.

Redes sociais

As redes sociais foram concebidas para unir e conectar as pessoas, no entanto, podemos ver no documentário que na verdade as estão usando como armas.

Armas de persuasão, invasão de privacidade em uma verdadeira desconstrução de ideais, dividindo países em polos adversários para depois molda-los conforme suas vontades.

Assim, está claro que o poder das redes sociais vai muito além de simplesmente conectar pessoas.

A sociedade como um todo, deve entender que os seus dados possuem valor. E que esses dados nas mãos das pessoas erradas podem (e já estão) ser usados contra elas mesmas.

Se foi possível manipular eleições americanas e a votação do BREXIT, imagine o que mais pode ser feito.

Eleições, decisões de compra, criação dos filhos, estilo de vida…tudo isso pode ser “facilmente” manipulado através dos dados e redes sociais.

Resultado do processo contra a Cambridge Analytica.

Após meses de discussão judicial, por fim, a Cambridge Analytica acabou por reconhecer que manipulou os eleitores americanos.

Ela se declarou culpada e foi obrigada por decisão judicial a entregar os dados pessoais que havia coletado de David Carroll (Eleitor americano que ingressou na justiça Britânica para saber quais os seus dados que a Cambridge Analytica possuía sobre ele).

No entanto, apesar da decisão judicial, a Cambridge Analytica ainda não cumpriu com o determinado, alegando que não possui mais os dados desde que fechou.

GDPR e LGPD

Portanto, vê-se que leis como a GDPR e LGPD são antes de mais nada leis de abrangência internacional e as empresas que desejam ter negócios de âmbito internacional deverão buscar por uma assessoria jurídica especializada para total adequação.

Já existem especialista, inclusive no Brasil, discutindo sobre considerar como Direitos Fundamentais os dados dos indivíduos.

Para o momento tecnológico em que estamos vivendo, leis como a GDPR e a LGPD são fundamentais, pois os dados pessoais são cada vez mais importantes e valiosos.

No Brasil, a LGPD veio para ficar e será um marco de extrema importância no cenário jurídico brasileiro, colocando o país em pé de igualdade com diversas outras jurisdições que já possuem legislações robustas sobre o tema.

E empresas de todos os setores terão de se adequar as suas normas para que não sofram sanções que podem chegar até 2% do faturamento.

Uma dica para quem deseja evitar passar por esse problema e não sabe por onde começar, é pesquisar um pouco mais sobre o Privacy by Design.

Privacy by Design é uma metodologia que engloba todos os setores da empresa e coloca a proteção de dados em destaque. Caso queira saber mais, basta clicar aqui.

Conclusão

Não temos dúvidas de quem as redes sociais fazem e farão parte de nossas vidas por muito tempo.

Através delas podemos ampliar mercados, nos comunicar com mais rapidez, matar a saudade daqueles que moram longe.

Mas também, se não houver regulamentação, tudo isso poderá (e já está) ser usado contra nós.

Quanto as empresas, estas devem tratar a proteção de dados como uma questão ética.

Uma boa política, lastreada na ética, deve dar uma opção de fácil manuseio pelos clientes para aquelas janelas em que o usuário precisa clicar o aceite aos termos de uso e privacidade. Para que estes possam escolher se querem ou não compartilhar seus dados, e que tenham ciência do uso que se fará deles.

Somente com fiscalização e ética empresarial, os cidadãos brasileiros e mundiais poderão refletir se, de fato, estarão seguros ao tratar de negócios com organizações multinacionais cada vez mais poderosas.

Não existe e nem precisamos arranjar uma solução milagrosa para sair da rede. Precisamos entender como esses dados afetam as nossas vidas para que não sejamos (mais) manipulados.

 

Alan Vital

Alan Vital é Advogado e Programador Front End, Pós graduando em Direito Digital e Compliance, especialista em Marketing Jurídico e Gestão de Escritórios Digitais, além de membro da Comissão de Direito Digital do Estado de Santa Catarina - OAB/SC, Membro da Comissão da Jovem Advocacia do Estado do Rio Grande do Norte - OAB/RN, Diretor da ADVBOX e proprietário e criador do Aplicativo AvaliaJus.

Este post tem um comentário

  1. Marcio Vieira

    Muito bom texto, parabéns! Realmente, este é um tema muito preocupante na vida de todos.

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